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terça-feira, 10 de novembro de 2015

AMPUTAÇÕES: Implicações Psicológicas e Emocionais...




Não se deixe vitimizar: resista, confronte, enfrente e em tempo algum desista sendo negligente ou displicente consigo mesmo. 

Deijone do Valle
  

Falar de e sobre pessoas nos remete a um universo multidimensional, permeado por anseios, buscas, desejos, alegrias, apatias e tristezas.

Vamos arquitetando a vida ao longo de nossa existência e promovendo escolhas ou mesmo deixando de fazê-las, que também já é uma escolha, e logicamente assumindo ou não as consequências.

Então? Você melhor, o mundo também fica melhor, e a segurança ou vulnerabilidade de cada indivíduo, depende em grande medida do esforço adaptativo, e de sua forma de enfrentamento dos desafios encontrados ao longo do ciclo vital.


O provável grande desafio da espécie humana neste século, é o envelhecimento com autonomia, pois a vida é uma grande história, mas alguns roteiros nós mesmos necessitamos escrevê-los.

Como tem sido o seu olhar para a vida?

Quais são suas expectativas, propósitos e limitações?

Espirito obeso e ou fragmentado?

Indelicado com voce mesmo?

Cadê a leveza da alma?

Conhece o mito da Fênix? Esse pássaro lendário da mitologia grega, símbolo do sol, que no final de cada tarde se incendeia e morre, renascendo a cada manhã.

A fênix entrava em auto-combustão e renascia das suas próprias cinzas.

No mito, o homem expressa seus próprios anseios e fantasias e assim poderá compreender que destino dar á sua vida, usando com criatividade suas energias emocionais, reconhecendo sua vontade e responsabilizando-se  na busca da concretude de suas potencialidades e realizações.

Essa narrativa simbólica da Fênix que renasce de suas cinzas, tem associação bem próxima do rito/ação, onde poderemos renascer de nossas próprias misérias, e o simples ato de você relaxar seu tônus muscular, já é uma boa ajuda.

É o pensamento que dispara os sistemas de defesa do organismo, e um deles é o prazer, por isso acalme-se, acalma o seu coração e não impacte a sua doce massa cinzenta com doses elevadas de ansiedade e outros temores, pois estes certamente bloqueiam o sistema imunológico.

O importante é buscar a paz interior para que dessa forma, as decisões para um direcionamento da vida possam ser tomados clara, objetiva e sensatamente.

Qual foi o dia, ou o momento mais escuro de sua existência?

O que fazer quando o barco da vida balança demais?


O quê?  Passou por uma amputação?

Novas perspectivas foram criadas para a melhora da região amputada, não e verdade?

O termo amputação vem do latim - ambi: em volta/ao redor de;  e putatio: podar/retirar.

Este retirar tem como meta a manutenção da vida e confronto com o Tanatos, instinto de morte, que basicamente é por natureza destrutiva, e que de certa maneira corresponde ao nosso desejo inconsciente de voltar ao estado inorgânico da matéria, que é a morte, mas reprimimos e damos vazão á ansiedade como expressão da memória traumática.

As etiologias das amputações tem causas variada, desde as decorrentes de doenças crônico degenerativas; outras por causas traumáticas; as neoplasias; mal formações congênitas; anomalias cromossômicas e deformidades de toda ordem.

Amputação é algo que evidência e contextualiza a fragilidade de nossa identidade, de nosso self,  envolvendo estruturas neurais que se mesclam até chegar à consciência e até poderíamos adentrar a seara da metafísica, porque não?

A complexidade do psiquismo humano desafia teorias, análises neurobiológicas e conceitos devido à sua capacidade auto-reflexiva e relacional, um corpo que gera uma mente, esse dualismo corpo/mente proposto por Descartes.

É notório a ambivalência diante de um corpo que se apresenta diferente do habitual e também o olhar do outro sobre este corpo.

Esse fenômeno de olhar-se e ser olhado, certamente terá um caráter fenomenológico que exigirá restruturação, ressignificação e suporte específico diante da singularidade de cada indivíduo.

Em nossa sociedade existe uma hipervalorização da imagem corporal aliado ao estético e belo, onde absurdos são realizados na busca pelo “corpo perfeito”, imposto por padrões inatingíveis e isso afeta o equilíbrio entre auto-estima  X auto-imagem.

A aceitação social é um campo minado no binômio: ter e ser/presença ou ausência.

Essa reciprocidade é rompida pelo incomum e o inesperado como é o caso das amputações  complexas e de grande porte, sendo necessário dar um alinhamento singular ás diversidades, quebrando a concepção materialista do corpo, visto meramente como objeto.

É necessário amadurecer essa sociedade, rompendo estigmas e educando essa geração para um olhar mais ampliado sobre a aparência física, indo além do que é meramente considerado “normal”.

Ser diferente é motivo de sentimentos como vergonha, auto-piedade, inveja que são respostas que podem ser conflituosos em um mesmo indivíduo, devido a alteração de sua imagem corporal.

É premente uma relação de ajuda diante das variadas respostas emocionais de quem passa pelo processo de amputação, uma vez que envolve implicações profundas e que se evidenciam através das dimensões física, psicológica, social  e também espiritual, onde se confronta até a fé do paciente.

A possibilidade da necessidade de uma amputação gera sentimentos de insegurança e questionamentos variados, estresse e incertezas, tanto para o paciente como sua família.

Dúvidas quanto a cura, quanto ao potencial adaptativo e a própria autonomia e segurança quanto à qualidade de vida são comuns, envolvendo questões humanas e éticas,  no processo de amputação.

Informar o destino a dar à parte ou orgão a ser amputado, seja destinado a estudos e pesquisas ou sepultamento, tudo isso traz aceitação e serenidade para o paciente.

A amputação envolve estados emocionais que por sua vez desencadeia sentimentos  quanto à imagem corporal, auto-estima, socialização, produtividade ou sensação de invalidez.

A decisão de amputar, impacta de imediato o psiquismo do paciente, desenvolvendo sentimentos ambivalentes entre as relações do “eu", o seu mundo interno e o mundo das pessoas que a circundam.

E decisões assim, acoplam idéias que se revestem de sentimentos e estados de humor variados, uma verdadeira cascata de ações que não dividem nunca a linha entre o pensar e o sentir.

A amputação nos confronta com a onipotência e o Tanatos, essa força que evidencia a nossa finitude.

O sentimento da perda é real, legítimo e provoca respostas emocionais de extrema tensão e complexidade, associadas a mecanismo de defesa do ego como: negação, raiva, revolta, racionalização, procrastinação, enfim até é possível um processo depressivo.

Existe necessidade de suporte psicológico para uma ressignificação do membro ausente, devido ao sentimento psicológico de diferencição, inferioridade e ou invalidez.

O toque terapêutico físico e psicológico ajuda no enfrentamento do mundo externo, e  assimilar a nova imagem corporal aliada ao seu “eu”.

São forças poderosas que operam em nível inconsciente e com múltiplos disfarces manifestados pelo mecanismo de defesa e que no final acabam se expressando através de alta ansiedade, tão prevalente na vida psicológica de quem  sofreu algum tipo de amputação.

Não poderia deixar de mencionar a questão do “membro fantasma”, fenômeno que poderá ocorrer após a amputação.

Este termo foi criado em 1871 pelo americano Weir Mitchell, para descrever a sintomatologia encontrada nos soldados mutilados durante a Guerra Civil Americana, que apresentaram sensação da presença do órgão ou membro, após sua amputação, sendo referida como dormência, pontadas, cãimbras, coceira e mesmo dor.

Esta sensação tende a regredir paulatinamente e desaparecer meses ou anos após o trauma.

Os aspectos neuropsicológicos revelam uma memória que não foi esquecida pelo cérebro, ou seja, o córtex sensorial ainda não conseguiu se reorganizar e processar adequadamente a nova imagem corporal e a co-responsabilização no processo de reabilitação.

A reintegração corporal juntamente com os aspectos psíquicos, exigem a colaboração do indivíduo, no sentido de realizar o luto, que é um momento da elaboração da perda, desde a vivência da notícia da amputação, o enfrentamento da sua realização, até a ressignificação da imagem do corpo, adaptado à nova condição.

No contexto da amputação é muito claro o sofrimento, mas é necessário estimular os aspectos saudáveis do paciente e integrá-los num ajustamento racional, construtivo e criativo, tendo como consequência a obtenção da satisfação e a aquisição da segurança que é contextualizada na aprovação e aceitação por parte do ambiente humano.

Outro ponto digno de interesse é buscar soluções práticas, vindas das inovações tecnológicas em sistemas neuro-ortopédicos de alto desempenho, que muito tem contribuído para a reabilitação através da protetiação, que tem propiciado soluções incríveis e  com uma significativa melhora na autonomia, nas relações interpessoais e consequentemente na qualidade de vida.

A ordem pode ser reconquistada pela adaptação de próteses que criam condições favoráveis para que prevaleça a funcionalidade do orgão amputado, sendo possível vencer resistências iniciais e usá-as construtivamente, tanto na maneira especifica de relacionar-se com si mesmo, e com o mundo.

Os benefícios esperados com a reabilitação, é  possibilitar autonomia,  inclusão social,  e naturalmente devem envolver aspectos cognitivos, alterações de praxia, linguagem, percepção visual, enfim estabelecer uma rede de apoio ao paciente.

A vida continua e o tempo de cantar chegou, por isso movimente-se com saúde.

          

Deijone do Valle
Neuropsicóloga

terça-feira, 6 de outubro de 2015

VIOLÊNCIA CONJUGAL: Manipulação Psicológica...

Metaforicamente nossos “joelhos existenciais” começam a  tremer  diante das fissuras ocorridas no âmago da alma, no entanto, é possível voltarmos inteiros, mas transformados.
Deijone do Valle



A sua mente é, e continuará sendo, um lugar de desejos, enganos, medos, motivações e fantasias, caso você não a discipline e a tenha  sob controle.

E uma forma brutal e comum de minar a autoestima, seus valores morais e éticos, é deixá-la passiva.


Conhece a síndrome da passividade?

Compreender sua mente e o funcionamento dos mecanismos de defesa do ego, é o primeiro passo para uma boa defesa dos ataques que esta sofre contínua e persistentemente.

Nossa existência basicamente é moldada pela mente, e a palavra chave é equilíbrio, para a manutenção da saúde física e mental.

Vivemos a era da insatisfação, as pessoas são bombardeadas por padrões de comportamentos distorcidos, imagens idealizadas, atributos físicos inacessíveis, valores questionáveis, status virtuais e uma série de imposições que ditam modelos impossíveis de serem alcançados.

Mas o que é mesmo violência?

Violência é o abuso da força, seja física, psicológica, moral, patrimonial e sexual.

Na verdade, a violência é representada por ações e ou omissões, que fragilizam o  psiquismo de maneira cruel, forçando a vontade do outro, submetendo-o pela oposição ao direito e à razão.

E o que dizer da violência conjugal?

Daquelas agressões físicas que marcam a pele e deixam o olho roxo?

Ah! Você é daqueles que se silencia, como no famoso jargão popular: “em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher...”

Lá se foi o tempo em que a violência conjugal poderia ser um problema privativo do ambiente doméstico e silenciado entre as quatro paredes do domicílio, do lar doce lar.

Tudo mudou, os gritos são ouvidos, a polícia é acionada e os tribunais também.

Posso dizer sem medo de errar, que briga de marido e mulher é uma questão social e de saúde pública, sabia?

Atualmente temos leis que pretendem mudar conceitos, posturas e atitudes. Lei Maria da Penha?

Daqui a algum brevíssimo tempo, teremos também a Lei João da Rocha, concorda?

Maridos também apanham e apresentam lesões corporais. É cada arranhão! Cruzes!

Os parceiros de certa forma estão degladiando e nem percebem com clareza as agressões que praticam e promovem um contra o outro, são dois íntimos inimigos, que vão adoecendo numa mutualidade que fere, arranha, morde, desrespeita e leva a relação para o fundo do poço.

Quantos casais vivem uma ciranda viciosa de brigas intermináveis, discussões infindáveis, xingamentos, acusações de toda ordem, que ofende a dignidade da relação conjugal.

O interessante é que estes casais levam um tempo enorme para perceberem que estão brincando na fronteira da morte, e o cenário dessa violência psicológica a qual são submetidos, dá os sinais de seus efeitos nocivos não apenas na saúde do casal, mas dos filhos e da sociedade.

Vivemos em uma sociedade repleta de desajustados emocionais, onde se vê o sofrimento estampado nos olhos do vizinho, do colega de trabalho, do conhecido e do desconhecido que cruza a rua.

Uma verdadeira epidemia de dores emocionais e psicológicas.

Identificar os sinais da violência não basta, a difícil tarefa fica por conta da devastação da alma e das consequências dessa violência na vida das pessoas e que lhes rouba a alegria de viver.

Não se padroniza sofrimento, este é sempre singular e surpreendente, é algo que subtrai a espontaneidade, diminui o diálogo, e devassa a autoestima e a autonomia.


Prevenir ou punir? Intervir?

O que responder, diante de um cenário difícil, onde impera o desrespeito, a omissão, a insatisfação, a dominação, a infidelidade, a opressão e a desqualificação na competência sexual, pessoal ou profissional?

O panorama é de uma violência disseminada em todas as esferas da sociedade e que não escolhe classe social, grau de instrução, religião ou cultura.


A intolerância é a marca registrada na vida conjugal contemporânea, daqueles que atravessam os limites da ponderação e do bom senso e cruzam a linha divisória, mergulhando fundo em ações de cunho violento, caracterizado por espancamentos, gritarias e por fim, polícia.

Casamentos marcados por intolerância é um típico navio naufragado, onde precisa ser ajudado, pois intolerância gera incomunicabilidade, ações negativas, como socos, pontapés, tapas, mentiras, acusações, tiros, facadas e todo o tipo de ação deletéria que no final resulta numa ruptura psicótica, como é o caso do suicídio.

Os vínculos desfacelados e empobrecidos afetivamente, ampliam o distanciamento entre os casais, manifestado pelo desinteresse, pelo desprezo ou pelo ciúme patológico, isolamento social, impaciência, uso de drogas e bebidas alcoólicas em exagero, traições e que culmina numa crescente desnutrição psicológica da relação afetiva.

O desinteresse afetivo leva a uma inversão e deslocamento da emoção saudável, por exemplo, viver sexo compulsivo, poderá gerar transtorno alimentar (comer ou beber demais), depressão, como consequência da violência psicológica.

Cadê a compaixão? Cadê a empatia? O diálogo, a tolerância, a paciência e o respeito?

Ás vezes será necessário buscar ajuda profissional, familiar e espiritual.

Estes embates físicos e emocionais desencadeiam um vazio psicológico, destruindo o compromisso humano de família e sociedade, acentuando os padrões manipulativos de dominação e desamor, tornando-se uma relação perigosa, de adoecimento e de morte.

É comum a instalação de processos depressivos em um dos casais, ou em ambos, e não apenas no aspecto físico e psicológico, mas comprometendo toda a existência.

É aquele marido que mergulha no trabalho e não que voltar para casa, ou aquela mulher desconfiada e invasiva, tudo se torna conflituoso e as cobranças e acusações mútuas, transformam a existência em um fardo insuportável para ambos.

É necessário interromper o ciclo de violências, de atitudes iradas, espírito crítico, recriminações e ataques constantes contra o outro, pois isto provoca um verdadeiro tormento emocional de frustração e ressentimento, um círculo extremamente vicioso.

Responda por favor: Se eu pudesse perguntar ao seu cônjuge o que você está fazendo de errado, o que ele me responderia?

É preciso saber! Não adivinhe... pergunte!

E de uma vez por todas, pare de remoer pensamentos amargosos, tipo: Ele não me ama...; Não consigo acreditar que ele foi capaz de fazer isso comigo...; Nunca o perdoarei.

Substitua esses pensamentos por pensamentos agradáveis, bondosos e afetuosos: Bem, ele parece que está mudando...; É difícil, mas posso superar...; Vou perdoá-lo.

Amargura é um veneno para o casamento, é como um rastilho de pólvora pronto para  explodir nas ocasiões mais impróprias e inesperadas, o que amplia a chance de separação e divórcio.

E o que dizer de pensamentos vingativos e de retaliação? Pare... enquanto é tempo. Não deixem que criem raízes.

Vou te dar uma dica: Todas as vezes que você tiver vontade de dar o troco, faça algo  bom para o outro: engraxe os sapatos dele; lave o carro dela; faça o doce preferido dele; mande-lhe um buquê com as flores prediletas dela.

Faça isso até aprender a perdoar e superar seu estresse emocional e depois faça por puro prazer.


Não tome decisões ou fale coisas por impulso, persevere em manter o equilíbrio e nada de ficar cultivando a autopiedade que é um gatilho para a depressão.

Aprenda a desenvolver a paciência, com um espírito perdoador e respeitador, nada de berros,  baixaria  ou quebrar inofensivos objetos do lar, não é mesmo?


Mantenha a educação, fale com firmeza, mas com classe e afeto, e nada de ironias desnecessárias e provocativas, seja cortês e polido, você só tem a ganhar, mantendo padrões razoáveis de honra e respeito pelo outro.

E finalmente, busque a paz, a violência gera apenas perda, e como expressou o filósofo existencialista Jean-Paul Sartre: “A violência, seja qual a maneira como ela se manifesta, é sempre uma derrota”.



Deijone do Valle
Neuropsicóloga

terça-feira, 8 de setembro de 2015

ROTA DE COLISÃO - Transformações

“As ideias que defendo não são minhas.
Eu as tomei emprestado de Sócrates, roubei-as de Chester Field, furtei-as de Jesus.
                     E se você não gostar das ideias deles, quais seriam as ideias que você usaria?
 "                                                                                                        Dale Carnegie

É difícil mensurar a dor humana em sua singularidade, e muito menos o prazer, portanto, o meu olhar recaí sob duas perspectivas: uma, é a de ver o que é real, e a outra, o que não existe.

O mundo passa pelos olhos de quem vê e pelo jogo da verdade: o mundo efêmero e cronológico, e o mundo da alma, etéreo e atemporal.

É muito bom olhar nos olhos do outro, dois olhares, dois universos... uma poderosa multidimensionalidade existencial, uma grandeza que sustenta a vida.

O que acontece, é que a nossa humanidade nos leva além do mundo como ele se apresenta, seja regido pelo princípio da realidade, ou pelo princípio do prazer.

Mas o que seria de nós, se não fossem os sonhos?


Você tem nostalgia de quê?

A pressão do cotidiano te fragiliza?

Sonhos da alma, onde reside a beleza das coisas não verbalizadas, as fantasias im(possíveis), os poemas não escritos, as paixões inconfessáveis, os sentimentos e pensamentos enclausurados em algum porão da mente.

A verdade é que estamos em “processo”, em constante transformação, percorrendo novos caminhos em busca de necessidades, preferências e satisfações.

Buscas e procuras, que nos levam a um nível acentuado de ansiedade, causando uma hipersensibilidade comportamental, tão presente nos transtornos de ansiedade e muito comum dentre os problemas de saúde mental.

São tantos pensamentos intrusivos e persistentes, que roubam nosso sono, faz o coração doer (dor toráxica), medo da morte, tremores, formigamentos, tonturas, sudorese, comportamentos repetitivos, disfunção social e quadros depressivos.

Qual será a cena perdida de sua história?


Onde ocorreu o corte temporal de sua realidade ou de seus sonhos?

Cadê a sensação de completude e inteireza?

Quem são os seus heróis?

Cadê a sua inocência?

E a alegria? Em qual beco você a deixou?

E essa angústia e esse vazio existencial?

O que idealizou ficou muito aquém do real?

O que te fascina?

O que precisa resgatar?

Que amarras te prendem?

Bem, loucura e genialidade são próximas demais.


O que tem assombrado o seu psiquismo?

O que move suas ações, suas escolhas e investimentos frente à vida?

Que dor é essa? Tente identificá-la.

Somos um caldeirão de conteúdos inconscientes, onde nos perdemos, não raramente entre os devaneios da alma e o confronto direto com a realidade, caminhando na fronteira entre o mundo externo e as fantasias da mente.

E aí? Então? Agora, por exemplo, você tem consciência de que está lendo este artigo, ou está apenas sonhando?
 
Assustador, não?

Ás vezes nossas emoções jogam sujo, uma verdadeira mutação inconsciente.

Em alguns momentos desejamos transformar o mundo, mas devemos nos abrir a uma transformação pessoal e esta se refletirá no universo à nossa volta...

E como diria Freud: “um entrelaçamento entre nossa vida cotidiana e a subjetividade”.

Somos parte da essência, na construção do ser-no-mundo, esta complexa equação de vida, onde se revela o fugaz e o transitório, assim como também em contraposição, o eterno e o dinâmico.

Jung,  nos apontaria o seu dedo implacável: “Tudo  que nos irrita nos outros pode levar-nos a um entendimento de nós mesmos”.

Portanto, é melhor, fazermos as pazes conosco mesmo, essa difícil tarefa na compreensão de si, de nossa unicidade, singularidade e não apenas nos contentarmos e nos escondermos na multidão ou no isolamento deliberado.

O confronto do ego, juntamente com os nossos mecanismos de defesa, chega a ser paralisador, e humanos, decididamente não são, assim, digamos padronizáveis, nossa individuação e subjetividade criam barreiras e sentimentos personalíssimos difíceis de serem rompidos.

Passamos uma existência caminhando em extremos e muitas vidas são definidas, não por um tempo cronológico, mas pelo seu estado de espírito.

Qual é mesmo a sua realidade? Vibrante? Monótona? Caótica?

O seu mundo é nítido e claro ou mergulhado em brumas e névoas?

Experiências difíceis e bem particulares?

O que te mantém vivo?

Alguns vivem flertando com a morte, e esta lhes acena uma mão sedutora.

E essa força destrutiva que batalha em sua mente? Isso é pungente, me comove...

Complete, por favor: Viver para mim é um ....... desperdício? desafio? Acertei?

Ah!  entendo, quer razões para viver... Encontre-as...


Quantas vezes nos vemos nos limites de nossas forças físicas e ou psicológicas, descrentes e desiludidos, e em paradoxos, como no velho ditado: “Se cobrir vira circo, se cercar vira hospício”.

Mas podemos melhorar sim, é possível transformar-se, respeitar-se, convivendo consigo mesmo de forma leve e delicada, através da disciplina do pensamento, acreditando no que é capaz, e realizando um diálogo interno com o seu espírito (consciência, intuição e comunhão).

Encontre um rumo, conviva com pessoas que lhe acrescenta, no mínimo, uma pitada de bom humor no seu dia.

Trate o seu “eu” com paciência, com compaixão e arranque qualquer máscara que impeça o manifestar daquilo que você tem de melhor.

Não desista nunca, tente sempre, outra vez e outra vez e sabe de uma coisa: “daqui a cinco anos, você será basicamente os livros que leu e as pessoas com as quais você andou”. Experimente!

Se não mudarmos de rota, inevitavelmente terminaremos no ponto de partida, com dores descomunais, acompanhadas de lágrimas, lutas instintivas, retalhos do passado, fragmentos do presente e angústias conscientes e inconscientes.

Tudo isso, é a nossa existência humana e a busca inexorável pelo óbvio: o sentido da vida.

A boa notícia, é que temos a capacidade para enfrentar nossas verdades e mudar, caso seja necessário, e liberdade para crescer como pessoa.

Seja mais flexível com você mesmo, gerenciando sua ansiedade, com pausas para ouvir a sua música predileta, ler o seu poema preferido, fortalecendo sua auto-estima com pensamentos favoráveis a seu respeito, cultivando um rotina de cuidados pessoais (horários para comer e dormir, praticar uma atividade física regular nem que seja de 10 minutos diários) e  rir (principalmente de você).

Nunca abra mão de sua competência pessoal, profissional também, no sentido de não permitir outros invadirem desrespeitosamente seu espaço, desqualificando-o com atos  invasivos, tolhendo sua privacidade com ações que anulam seu querer e expõe sua individualidade,  privando-o da  liberdade de escolha.

Nessa teia de relações, não podemos mergulhar em padrões manipulativos e  destrutivos e nem  deixar-nos  dominar pelo outro, seja esse outro quem for, roubando sua vontade e infligindo cobranças e conflitos que acabam por minar a saúde e  instalar o adoecimento, manifestado por sintomas físicos e emocionais, tornando-nos desnutridos psicologicamente.

Os vínculos conflituosos, marcados pelo domínio de um sobre o outro, através da desonra e imposições desmedidas, poderá produzir o descuido consigo mesmo, anulando-o, em sua condição de sujeito e subjugando a sua vontade, tornando-o passivo.

Tudo isso poderá gerar alterações na auto-imagem e no auto-conceito, esta invasão do “eu” pelo outro, promovendo uma desmedida violência psicológica.


Uma virtude humana a ser exercitada é a empatia, cuidado e respeito pelo sentimento alheio, nunca impondo condições e exigindo afeto em doses cavalares.

O diálogo é um bom ponto de partida, mas quando isso, torna-se  impossível, o que vemos é  um processo crônico de deterioração das relações e o adoecimento, manifestado  por uma existência disfuncional, comprometida e infeliz.

Como percorremos a nossa caminhada na vida é a questão central da existência humana, e a busca pela felicidade, se é que poderemos conceituá-la, então, felicidade é poder estar com o outro pelo prazer e satisfação de tê-lo como presença.

Ah! te peguei: “quer ser feliz”, e isso nos remete ao arquetípico, mas sinto te dizer, esta tarefa é sua.


Quais são os seus melhores valores?

Estou a cutucar a sua subjetividade... vista-se com seus sonhos e com as imagens de suas mais caras fantasias.


Temos nostalgia...

Buscamos identificações e somos corroídos pela angústia do desejo, uma tremenda saudade de algo: “em algum lugar do passado” ou será no futuro?

E por fim, faça as pazes consigo.

Freud dixit! (O mestre falou!).


Deijone do Valle
Neuropsicóloga



sábado, 1 de agosto de 2015

AMOR: On-Off ... amado amor


“Poderoso é o amor, o contentamento/descontentamento é tamanho que fica “quase” impossível comer ou dormir.”
                                                                                                                                        Deijone do Valle


É comprovado pela neurociência que existem áreas específicas do cérebro que são acionadas quando nos apaixonamos, e isto é possível ser verificado através das varreduras de imagens de RM (Ressonância Magnética), que nos permite mensurar e visualizar o cérebro vivo, assim como também, um significativo aumento dos batimentos cardíacos à visão da pessoa amada.

Então? Rolou uma química? Tem fundamento científico.

Poderoso é o amor, esse instinto inato que nos faz olhar alguém e elegê-la nosso amado, é algo que transcende a nossa vã compreensão, esse arroubo quase imprudente na construção de uma paixão, essa experiência imprevisível e deliciosa quer seja consumada ou não.

A nossa arquitetura cerebral foi construída para conter uma avalanche de neuroquímicos capazes de produzir milhares de sensações indescritíveis, de forma quase automática, no sistema límbico, esse centro impetuoso de emoções, com suas conexões diretas com o córtex, principalmente a amígdala (centro emocional) e o hipocampo (memória), e isso pode dar uma explicação sobre nossas lembranças, e emoções fortes, que às vezes são evocadas pelo cheiro, por exemplo, através dos bulbos olfativos, promovendo uma farra de informações, representações sensoriais, eventos e o próprio comportamento.

Veja nosso córtex cerebral com seus profundos sulcos e dobras, com essa quantidade enorme de células nervosas, mais ou menos, cerca de cem milhões em cada seis centímetros quadrados, são bilhões de neurônios, para termos uma ideia, o genoma humano, contém menos genes. Incrível, não?

Meu Deus, somos criaturas milagrosas, principalmente quando nos reportamos ao amor e tentamos entender a natureza da paixão.

Dentro de nós existe uma tempestade de forças, que se entrelaçam entre mal-entendidos, ódio, e outras atrocidades e também o amor.

Matamos o outro, mentimos e traímos, mas também somos capazes de amar, compreender e ser fiel.

Cérebro e mente, genética e neurociência, medos e empatia, como explicar porque amamos tanto?

Vamos caminhar juntos nesse  terreno estranho e ao mesmo tempo conhecido, e ver como o amor afeta a vida de pessoas comuns como você e eu.

Nossa mente é um labirinto complexo, de penhascos, montanhas, vales, despenhadeiros, abismos, precipícios profundos e inimagináveis, isto te assusta?

Mente e cérebro são indivisíveis, não se pode separá-los, é como querer separar a dançarina da dança.

Esta nossa humanidade, nos leva a querer definir e criar interfaces entre nós e outros, decompormos o tempo em retalhos e criarmos conceitos como futuro, presente e passado.

Atribuímos valor com base na raridade, utilidade ou beleza, analisamos, sentimos,  e queremos controlar, enfim sintetizamos e corremos o risco de destruir a essência, sendo mais saudável gostarmos do todo do que meramente das partes.

Nosso entendimento do amor é limitado pela tendência humana de decompor e inventar um conjunto de dicotomias e categorias arbitrárias e hierarquizadas.

Nossa mente campeia em mil atividades celulares e em nível molecular para entender o que é o amor, esse conceito emocional, que na realidade não é apenas composto de sensações, mas um conjunto de funções cerebrais, com suas múltiplas conexões e plasticidade, e que nos sinaliza a disponibilidade ou não da mente humana e cérebro, estarem em constante mobilidade e mudanças de nossos estados mentais, que por sua vez são impactados por experiências que também respondem a estruturas neuroquímicas, carregadas de carga emocional, que se alinham em uma resposta adaptativa de nosso mundo interno e externo e que se encontra em permanente mudança.

Que bom, ter um cérebro plástico para o amor, não?

“Cérebro plástico”, que dá novas respostas, aprende, adapta-se, sente, pensa e nos ajusta em opiniões e atitudes, numa equação básica entre funções da mente, influências ambientais que é igual a comportamento modificado.

Logicamente a matéria-prima para o amor, tem origem nos cinco sentidos, onde o cérebro se encarrega das conexões que podem ser de origem emocional ou social, e o que é espantoso na ativação da rede neuronal, é que alguns tipos de  experiência sensorial, pode mudar para sempre esses circuitos em uma parte do cérebro.

Não entendeu? Imagine uma pétala de rosa, isso ativa as áreas visuais, o cheiro ativa as partes olfativas do córtex (centro da função superior do cérebro, responsável pelas faculdades da memória, linguagem e pensamento abstrato), a maciez e textura da pétala de rosa, aciona as seções do tato, que por sua vez, também acionam diferentes áreas do córtex ao mesmo tempo, reforçando os circuitos neurais entre essas áreas.

Depois que isso acontece, é incrível, qualquer coisa que ativa uma parte da rede, consequentemente vai ativar todas as áreas que tem representações da pétala de rosa.

Essa pétala de rosa pode te fazer lembrar o jardim de uma casa lá da infância e te recordar de que você precisa visitar sua cidade natal. Todos esses tipos de memória resultam de um único estímulo. Maravilhoso, não é? Um poderoso caminho associativo, para estabelecer, formar e recuperar memórias, representadas em muitas áreas corticais diferentes.

Mas, e o tal do amor?

O que é mesmo estar apaixonado?

O que será que nos leva a ter alegrias ruidosas, tristezas profundas e dores inexplicáveis, quando somos consumidos pelas chamas do amor?

Quantos amores... Quantos olhares...

Quando nos apaixonamos, o outro passa a ter um poder e um significado especial, único e intransferível, onde se concentra toda a atenção e esta se dimensiona em lentes de aumento multicoloridas e que distorcem sensivelmente, sutilmente a realidade, transformando-a em uma doce ilusão.

Nossos olhos se deleitam ao olhar o outro, perdendo o sentido de limite e fronteira, é uma experiência universal e que pertence essencialmente a natureza humana.

Construímos em nossa mente um poema de virtudes, e os defeitos e diferenças, estes perdem o poder de incomodar, comprovando o ditado popular: O amor é cego!

A mente fervilha em um turbilhão de intensas emoções, tornando-nos alienígenas, desastrados e inábeis em atitudes e comportamentos, uma verdadeira explosão de  estupidez, que bloqueia nossa sanidade, tornando-nos ousados e paradoxais em nossas expressões de êxtase ou desespero.

Amor... uma montanha russa  de excitação física e psicológica, que flutua entre um estado permanente de necessidade da fusão com o outro.

Os sentidos se movem nas asas da paixão, atropelando o bom senso, mas nem tudo é agonia, o que nos leva também a criatividade, onde nascem os mais belos poemas, canções, histórias de amor, mitos, lendas com heróis e princesas sonhadoras.

E você já experimentou o amor? Essa força avassaladora que nos concede singularidade especial, extrapolando limites e desnudando a alma.

O humor dá mostras de impaciência, ficamos instáveis, sensíveis e irritadiços, é um desejo insaciável de unicidade, é como se perdêssemos momentaneamente o nosso sentido de identidade, desestabilizando as fronteiras do ego, arrepiando a pele ao toque,  e dissecando cada gesto.

A palavra “Amor” vem do sânscrito “Lubh”, que significa “desejar” e naturalmente faz sentido que as emoções e sensações do amor romântico, estejam relacionadas ao desejo sexual e sabe mais o quê? Ao monstrinho de olhos verdes – o ciúme.

Ai... ai... que coisa louca, esse louco amor.

Uma verdadeira enxurrada de estados de espírito, um caleidoscópio de sentimentos que se metamorfoseiam e inundam o cérebro com uma miríade de sensações perturbadoras.

Somos seletivos em nossas preferências, quando cravamos os olhos, vem à flecha envenenada do cupido, tipo choque elétrico de alta voltagem,  que nos atordoa, uma espécie de “amor a primeira ou segunda vista”? Talvez seja o estímulo visual, o ponto de partida para um romance.

O amor é considerado forte como a morte, vivemos e morremos por amor e nossas redes neuronais dão notícia da química que ocorre nos circuitos cerebrais, como a dopamina, noradrenalina, serotonina, tudo isso energizando o cérebro para sustentar a atividade cerebral dos apaixonados, principalmente com o pensamento obsessivo no outro.

O que fazer com essa ciranda viva, saltitante e pulsante que nos assalta sem pedir licença, essa orquestra formada por teias de forças complexas que vasculham nosso sistema cerebral, incendiando com sua trança de  fogo os circuitos neuronais.

É verdade, sentimos uma química amorosa por indivíduos semelhantes a nós, em inteligência, aspecto físico, situação econômica, valores, habilidades sociais, senso de humor, crenças, interesses ocupacionais, temos tendência a sermos atraídos por pessoas que se parecem conosco.

Mulheres gostam de olho no olho e de palavras, muitas palavras e... aquele olhar de ancoragem.

Homens, estes se sentem de certa forma ameaçados ou mesmo desafiados, quando olham diretamente nos olhos. Homens, o que eles precisam é de coragem e falar algumas palavras, não necessariamente um talento linguístico.

Enfim, não importa o quanto os neurocientistas mapeiem o cérebro, vasculhando a psicologia, neurofisiologia e a biologia do amor, eles nunca destruirão o magnífico êxtase e mistério desta paixão e magia, que em algum momento sentiremos, até porque o amor está profundamente arraigado ao espírito humano.

E como sugeriu o espetacular escritor irlandês, C.S. Lewis: “Somos uma semente pacientemente aguardando na terra: esperando surgir uma flor na hora propícia do Jardineiro, subindo no mundo real, o real despertar.

Suponho que toda a nossa vida presente, observada lá daquele ponto, parecerá apenas um sonolento semidespertar. Estamos aqui numa terra de sonhos. Mais o canto do galo está chegando”.


Deijone do Valle
Neuropsicóloga

domingo, 12 de julho de 2015

AMOR Além das Palavras...

 
“Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa ou como o címbalo que retine  ... se não tiver amor, nada serei.”
                                                                                                                     1 Coríntios 13: 1 - 2

Existem pessoas e pessoas, algumas encantadoras, outras inteligentes, criativas, humildes, complexas, amáveis, solidárias e altruístas.

Pessoas são fascinantes, um verdadeiro jardim a ser cultivado e apreciado, no entanto, ao convivermos mais de perto com algumas, certamente teremos conflitos e quem sabe, até pequenos estressores do dia a dia podem minar nossa capacidade de amar e demonstrar afeto.

Todos em alguma medida temos limites e imperfeições, quantas vezes gostaríamos de ser mais paciente, mais bem humorado, menos ansioso e mais agradável.

Alguma vez você foi capaz de elaborar um mapa de suas relações?

Relações pessoais, profissionais, familiares, sociais  e espiritual?

Estas relações espelham potencialmente nossas escolhas, e como reagimos a uma situação específica, evidenciado os aspectos internos e externos da alma.

Conhece seus limites? Suas fronteiras? Seus mecanismos de defesa?

O movimento emocional interfere em nosso comportamento e expandir as amplitudes da mente, podem promover lucidez e equilíbrio.

Quantos ficam cativos de suas emoções? Alguns só arquivam traumas, traições, discriminações, inferioridades, fobias, complexos e punições.

Acalentamos, afagamos e guardamos esse lixo emocional em algum cantinho neuronal de nossa espetacular memória existencial, geralmente de médio e longo prazo.

Como superar tudo isso? Coitado do nosso córtex cerebral,  tem que se  reconstruir...

É isso mesmo, reconstrução, construir novamente, reformar e reorganizar.

Saia daí fantasmas psíquicos! Parem de assombrar essa mente, e isto significa exatamente o quê?


Escolhas! Fazer escolha, gerenciando sua mente de forma consciente, confrontando sua ansiedade com domínio próprio e autocontrole, resgatando assim a serenidade.

Corrija suas rotas, arrisque-se a olhar com maior atenção suas perspectivas, e aquiete-se para ouvir sua intuição.

Cultive a paciência, pois a reconstrução é um processo extremamente lento que exige disciplina e força de vontade.

Não se compra tempo, mas qual é mesmo a oportunidade de hoje?

O quê? Uma leve arritmia diante de um olhar mais ousado? Ou um friozinho na barriga ao ser abraçado? São emoções boas, não é?

Você é uma pessoa fascinante ou difícil de conviver?
Como vai a sua capacidade de amar? Isso expressa valores ou necessidades?

O que o outro tem que você precisa? Qual a dimensão da sua possível capacidade de amar?


Amar, sem nada esperar... amor pelos excluídos, pelos miseráveis, pelos desprovidos de qualquer utilidade.

Amar o ser, é amar sem querer algo em troca, não ver nenhuma oportunidade de tirar proveito.

Uma parcela significativa de humanos,  ama o ter, bens materiais, status social, amor pelo dinheiro, pelo poder, amor condicional, sem gratuidade, absolutamente desprovido de graça, amor com preço e utilidade, amor que alimenta o ego pelo que recebe do outro.

Cadê os sonhos? Sonhe! Sonhos  traduz criatividade, aventuras, riscos e descobertas.

Surpreenda as pessoas com um sorriso de bom dia, de gratidão, de carinho, rompa o óbvio e encante o outro com um abraço ou afago, expresse sentimentos, que certamente irão marcar intensamente o córtex cerebral de seu amado.

Navegue nas águas da emoção, de forma saudável, serena e tenha gestos nobres, que confortam, acolhe e irrigam o relacionamento com atitudes iluminadas.


Seja justo, agradeça o maravilhoso ato de estar vivo, pois a vida é algo extraordinário, assombroso, deslumbrante e totalmente preciosa.

Como tem vivido a sua afetividade? Quais são as suas experiências emocionais significativas?

Tem pessoas que não querem encontrar-se no amor, outros querem  ser encontrados, outros enclausuram sua capacidade de amar, tornando-se ocos e sem vida.

Qual será a sua verdade máxima?


Quando sentimos amor é algo bem simples, mas ao descrevê-lo torna-se extremamente complexo.

Debruçamo-nos sobre uma dimensão multifacetada de formas e capacidades de amar.

Amar nos coloca em cheque com nosso mundo interno e externo, onde mergulhamos nas margens de nossa realidade psíquica em confronto com a experiência emocional do outro, levando-nos a correr riscos ou deliciar.

Difícil estar completo sozinho, mas o amor algumas vezes nos coloca em posição de dependência, e a escolha amorosa tem tudo a ver com a singularidade de cada um, são “divinos detalhes”.

E como diria Balzac: “Toda paixão que não se acredita eterna é repugnante”.

A questão que envolve a capacidade humana de amar,  está intimamente ligada às nossas relações interpessoais primitivas e atuais.

O contato humano é o substrato pelo qual se expressa nossas emoções, resultante de um complexo processo fisiológico e psicológico.

A capacidade ou disponibilidade para relacionar-se com o outro, faz desabrochar o potencial inato que temos para o amor.

Amar é uma atividade cognitiva/afetiva que irá permear todo o nosso ciclo vital, e que se estrutura na interação humana e se estabelece como uma marca singular e personalíssima  de nossa digital afetiva.

A afetividade é construída através dos vínculos estabelecidos durante a vida, em um processo dinâmico de contínuo movimento, o qual orienta condutas, atitudes, escolhas e a própria personalidade do individuo.

É um processo articulado, através dos elementos psicológicos, que vão desde a competitividade, cooperação, dependência, autonomia e que podem se transformar em elementos saudáveis ou patológicos, e que se tornam a matriz do nosso jeito de ser e estar no mundo, definindo a nossa identidade amorosa.

É fácil teorizar sobre o amor e até dizer que ele representa o fracasso do inconsciente, difícil mesmo é vivenciá-lo.

Diz o dito popular, que quando um não quer dois não brigam, assim é o amor em certos casos, você dá o que não tem para quem não quer, talvez seja esse, o freio do inconsciente sobre o amor, uma tremenda de uma insistência sobre o im(possível).

Simétrico? Irregular? Convexo ou Côncavo? Relativo ou Absoluto?

A verdade é que nenhum arsenal de conceitos vão satisfazer nossa percepção ou fantasia sobre o amor.


Ah! o amor... uma projeção sensorial, amparada por devaneios, ilusões, investimentos narcísicos de nossa psiquê e de nossas vivências e experiências humanas, essa forma de saber, onde se aprende vivendo, não é?

O amor, um caminho que deve ser percorrido, uma experiência insubstituível, talvez a mais doce e extraordinária das vivências humanas, um mergulho para além da alma.

Somos finitos em nossa amorosidade humana, um ser no mundo, e a presença do outro dentro de nós, de forma idealizada ou fantasiada em representações simbólicas da nossa consciência.

Se formos malvados e matarmos o ego do outro ao qual hipoteticamente amamos, o nosso próprio ego também irá morrer.

Chego a  conclusão de que o amor é uma tentativa de cura, sabe aquelas pessoas altamente tóxicas, rancorosas e que cultivam uma insatisfação crônica?

Estas deveriam aprender a amar, é o remédio perfeito, para amargurados, pessimistas, pessoas irritáveis até com pequenas bagatelas do cotidiano.

O problema dos chatos de galochas é que eles ou nós,  são como fermento que estraga a vida e azeda as relações, e o que é ainda pior, são portadores da  síndrome do contágio, que acometem quem convive com tais criaturas, uma verdadeira epidemia.

Temos mesmo que aprender a lidar com as frustrações e perdas, pois estas nos ajudam a construir com solidez uma afetividade saudável.

Na prática clínica é possível adentrar o mundo psíquico do paciente e vislumbrar o sofrimento, e quando se escava mais profundamente, o que comumente encontramos aberto ou de forma sutil, é o sofrimento ligado inexoravelmente ao amor.

Amor... o mundo em que habitamos e vivemos reflete claramente um contexto de egoísmo, invejas e opressão, um verdadeiro “mundo tenebroso”.
 
E se o mundo jaz na malignidade e no maligno, então estarmos no mundo, é uma espetacular oportunidade para fazermos a diferença e manifestar o amor, a compaixão, a bondade e a misericórdia, sabe de quem?

De Deus! Estar no mundo é ser sal da terra, é ser luz da vida, estar no mundo,  mas não ser mundano, nem imundo, é ser fonte de graça, essa é a nossa missão.

Infelizmente,  nos tornamos legalistas, que por sua vez leva à culpa, e esta a frustração, mas tenho uma boa notícia, como disse Dostoiévski:  "...o coração do homem tem um vazio do tamanho de Deus”.

Deijone do Vale
Neuropsicóloga

segunda-feira, 1 de junho de 2015

EPILEPSIA: O Grito do Pavão


“O rosto  descomposto, ele revirava os olhos, 
 nos quais apareciam uma rede de veias sangrentas,
 e a espuma em sua barba cerrada causava repugnância”...
 (A Fúria de Hércules – Vs. 790 – 830)

Na antiguidade clássica, a epilepsia já era conhecida, e Hipócrates, o pai da medicina, afirmava que sua causa estava no cérebro, desmistificando em seu livro: “Doença Sagrada”, a ideia de uma doença relacionada aos deuses e espíritos malignos.

Hércules, o semideus da mitologia grega, filho de Zeus e da mortal Alcmena, portava o morbus hérculeus (mal hercúleo), referência à epilepsia na tragédia grega.

Passaram-se os séculos, mas as desinformações e preconceitos permanecem.

Pensar em epileptologia nos remete a uma doença crônica, manifestada por descargas elétricas de uma ou mais áreas do nosso cérebro, e que tem um efeito tão intenso em um punhado de neurônios, e nos quais os sintomas obedecem a uma variedade de fatores etiológicos, no entanto, a epilepsia essencial ou idiopática não teria necessariamente um mecanismo patogênico definido.


Sabemos que nem toda crise é convulsiva, assim como nem toda convulsão é epiléptica, daí a importância na distinção destes eventos epileptiformes.

Neurocientistas observaram através das estruturas e funções cerebrais, diferenciações das epilepsias, e lesões no lobo frontal é o tipo mais comum de epilepsia em humanos.

A epilepsia é considerada um transtorno neurológico sério, muito embora seja  tratável esses insultos agudos que acometem o SNC (Sistema Nervoso Central), e que de certa forma, estigmatiza seus portadores, seja pela falta de informações, por ideias preconcebidas ou mesmo pelo feitio assustador das crises convulsivas.

As manifestações neurológicas são evidentes, basta olhar tais convulsões, mas é possível também, evidenciarmos os  sintomas psíquicos, através do próprio ataque epiléptico, que pode ser comparado a uma psicose de curta duração.

As regiões corticais são afetadas em graus variáveis, sendo os danos cerebrais similares ao da hipóxia grave e da isquemia.

Embora a epilepsia ainda não tenha cura, podemos falar em controle das crises, com drogas anti-epilépticas ou anti-convulsivantes, numa combinação monitorada entre eficácia e tolerabilidade, potência da terapia medicamentosa e efeitos colaterais, buscando sempre equacionar tais fatores com suporte psicólógico.

O anteceder da crise convulsiva é precedida pela emissão de um grito rouco, comparado ao grito do pavão, um som penetrante e desagradável, no entanto, se a glote está contraída, devido á saída brusca do ar, este som alarmante poderá não ocorrer.

A pele empalidece, a queda sobrevém de forma tempestiva, congestionando a face, iniciando-se assim, a fase tônica do ataque epiléptico, seguida da fase hipertônica, quando a musculatura se distende: braços esticados, pernas estendidas, o tronco opistótono (dobrado para trás), dedos flexionados sobre a mão, com o polegar em posição de adução e flexão extrema, encoberto pelos demais dedos.

A língua se projeta para fora da cavidade bucal ou mesmo enrolando-se, e a cabeça em movimentos rítmicos, para trás e para cima, sendo provável nesta fase tônica, a emissão involuntária de urina, fezes e líquido seminal, o que caracteriza sintomas autonômicos, assim também como aumento da salivação, sudorese, vômitos, entre outros, e que fazem parte do quadro clínico.

Após aproximadamente uns trinta segundos, instala-se a fase clônica de movimentos convulsivos, e que se intensificam deformando a fisionomia, em uma espécie de esgar, devido ao processo de agitação em clonismo dos músculos faciais.

Na fase tônica, o pulso que era pequeno, agora torna-se cheio, com uma respiração estertorosa,  um suor viscoso cobrindo a pele e  tornando-a pegajosa.

A fase  clônica  tem uma duração média de meio a um minuto, seguida de torpor, que poderá ser convertido em sono profundo, onde se ouve roncos e sibilos frequentes, quando é possível  observar a palidez da pele, e isto poderá durar de minutos a horas.


Quando ocorre o despertar, este se apresenta confuso, com amnésia lacunar, obnubilação mental, tonteiras e ou cefaléia.

Quanto às características psíquicas, é possível verificar lentificação do pensamento e repetição de ideias, entorpecimento e comportamento automatizado, com desorientação tempo/espaço, uma espécie de alheamento à realidade.

Outra característica psíquica que antecede ao ataque convulsivo, é a aura, e que tem feitio sensorial, sensitivo e motor, manifestados por espasmos, tremores, carreira brusca, visão das coisas na cor vermelha, imagens duplicadas (diplopia), sensações de dor, calor, frio, sons, alucinações visuais, gustativas, olfativas, táteis e cinestésicas.

A aura é sempre a mesma para a pessoa e tem caráter premonitório da crise epiléptica, antecedendo a tempestade que se aproxima, ou seja, o ataque convulsivo.

A medicina legal nos assinala casos de impulsos epilépticos imprevistos, sem motivos e violentos, e que não são registrados como lembrança ou memória pelo individuo.

A psiquiatria forense reconhece que durante as crises e pós- crise, é possível  verificar a ocorrência ou a produção de delitos, seja por acidentes de trânsito, através das crises de ausência (petit mal) ou convulsivas, como no caso do furor epiléptico, onde se registra  uma série de movimentos motores repetitivos e de extrema violência.

A questão é delicada e complexa, e não poderemos deixar de reconhecer que as alterações elétricas neurais, também processam mudanças comportamentais e na personalidade, seja por automatismo pós-ictais, seja por danos cerebrais, devido a crises frequentes.

Na verdade os transtornos epileptiformes da personalidade, são produzidos de forma secundária às alterações funcionais do SNC (Sistema Nervoso Central), do que exclusivamente emocionais.


Não podemos negar que a epilepsia é um distúrbio cerebral que condiciona consequências cognitivas, psicológicas, emocionais e neurobiológicas para o seu portador, logicamente levando-se em conta a frequência das crises, sua duração e a região cerebral acometida.

É provável uma predisposição das pessoas portadoras de epilepsia, para estados depressivos, e isto é compreensível devido à carga emocional acentuada,  associada às dificuldades impostas pela doença, disfunções da neuroquímica cerebral, aliadas ao estigma social e dificuldades psicológicas do indivíduo.

Esta somatória de condições  desfavoráveis, torna-se um terreno fértil para a prevalência de transtornos depressivos, e que são significativos na epilepsia, sendo a sua ocorrência maior do que na população geral.

É imprescindível a necessidade, e importância do tratamento para a depressão em portadores de epilepsia, uma comorbidade que é comumente subdiagnosticada e pouco tratada.

Não devemos menosprezar a questão do suporte psicológico para o enfrentamento dos medos e dúvidas do paciente epiléptico, níveis de ansiedade, isolamento social e afetivo, que permeia a vida diária de seus portadores.

O limiar entre o normal e o patológico, nem sempre está evidente no que se refere ao comportamento e personalidade, e assim nossos diagnósticos são basicamente sindrômicos, e que de certa forma define nossas condutas e o prognóstico.

Sintomas comportamentais, cognição, doenças neurológicas, cursam com sintomas variados, e que se localizam em um substrato anatômico e fisiológico, e que por sua vez não exclui o psicológico e emocional, lembrando  que é possível a ocorrência também de distúrbios psiquiátricos, e caso existam, estes dependem de uma vulnerabilidade individual para sua manifestação.

O efeito da doença neurológica, como é o caso da epilepsia sobre as estruturas do córtex cerebral, fornece um substrato para a compreensão de como dados internos afetivos/emocionais, e dados sensoriais/neurológicos, ativam os diversos sistemas de estruturas subcorticais e límbicas.

Existe um fenômeno, que eu não poderia deixar de mencionar, que é muito comum e prevalente em portadores de epilepsia, é a sensação Déjà vu (termo que significa: já visto, em francês).

Déjà  vu, são impressões, sensações e reações psicológicas estranhas de vivências, de lugares, pessoas e situações, que são processadas de forma  independente,  sem uma memória de arquivo real para acioná-las.

A condição de Déjà vu, é explicada, quando partes eletricamente estimuladas  do lobo temporal, aciona aquela sensação de familiaridade, com tudo que o indivíduo encontra pela frente, ou mesmo  de forma seletiva, principalmente os portadores de epilepsia, que buscam através da mente, em seus arquivos de memórias neuronais, aquilo que acreditam já terem visto ou vivenciado anteriormente, no entanto, não há registro no arquivo de memórias no lobo temporal, este espetacular guardião de nossas memórias mais primitivas.

Vamos parando por aqui, por enquanto, mas sem esquecer que nada substitui o raciocínio clínico, e como observou tão bem, o grande físico francês, Henri Poincaré: “É pela lógica que nós provamos; mas é pela intuição que descobrimos”.
 
Déjà vu!

Deijone do Vale
Neuropsicóloga